quinta-feira, 22 de maio de 2008

M... com amor - parte I



Anos 70. Era o tempo de contabilizar. As meninas que moravam no meu bairro, de uma maneira ou de outra, sempre que podia, tirava uma “casquinha”. Em festas, nas saídas com a turma, nas despedidas ao voltar para casa, toda vez que surgia uma ocasião. Mas isto era pouco. Tinha uma necessidade enorme de come-las, algo que desejava muito, minha fixação primeira. As meninas daquela época eram mais castas do que as de hoje onde a promiscuidade sem dúvida é muito maior. Havia mais desafios, o que tornava as conquistas muito mais interessantes.
E então aconteceu, aos 15 anos tive meu primeiro amor. Interessante esta coisa de paixão. O sexo deixou de ser aquela necessidade imediata e, por um tempo não pensei mais em nisto.
M (coincidência sim, tive algumas mulheres em minha vida com esta inicial em seus nomes) morava com seu irmão e sua cunhada no apartamento em cima do nosso. Ela com 19 anos. Morena, linda, olhos verdes, cabelos pretos ondulados, lábios perfeitos, pareciam desenhados, um corpo delicioso. Esbanjava viço e vitalidade. Eu sempre a comia com os olhos, mas era um sonho distante. Tinha um namorado abastado, com carro e moto. Minha realidade era outra. Eu carecia de dinheiro até para comprar roupas novas. Costumava vê-la, no carro com o namorado, ao se despedir, quando voltava para sua casa. Uma ponta de inveja e o pensamento de que um dia eu também poderia fazer isto com quem quisesse.
Mas a vida tem coisas que não se explicam. Ao chegar em casa, num final de tarde, nossa empregada R, comentou que a moça que morava no apartamento de cima, queria me conhecer e se eu quisesse ela viria mais tarde falar comigo. É óbvio que eu aceitei, quase sem acreditar no que ouvira. R se encarregaria de dar a resposta a ela enquanto eu tomava banho e me preparava para conhecer aquela deusa morena.
Pouco mais de uma hora se passou quando ela bateu em nossa porta. Não lembro se por timidez, por falta de jeito, por imaturidade não a convidei para entrar, ficamos ali de pé na escada. R nos apresentou formalmente, embora eu como ela já soubéssemos da existência um do outro. Muito mais eu do que ela.
Ela era encantadora, dona de um sorriso lindo, uma voz maravilhosa, um cheiro enebriante, linda. Falou-me muitas coisas; que morava com o irmão e a cunhada e que cuidava dos dois filhos destes. Quase não lhe sobrava tempo. Eu mais ouvia do que falava, encantado que estava. Não lembro quanto tempo ficamos ali parados, mas foi algo considerável, me parecia que o tempo havia estancado.
Nossas conversas passaram a ser diárias. M sempre me deixava com um astral excelente. Muito mais do que de costume. Meus amigos estranhavam a maneira como eu me portava mas eu não ligava, apenas esperava pela hora de encontrá-la novamente. Da janela do meu quarto, deitado na cama, eu via a sacada da área de serviço do apartamento de cima. M costumava ficar ali, eu ficava olhando-a extasiado. Ela “mexia” comigo, sorria, brincava. Eu não era mais o mesmo.
Até que numa tarde M passou em minha casa e perguntou-me se não poderia lhe acompanhar pois precisava sair, tinha alguns compromissos e não queria ir só. Sem pestanejar lhe acompanhei. Minha situação precária me fazia ir nos lugares sempre caminhando, e não foi diferente com ela. Andamos muito, falamos bastante. Ela cansou. Disse que a carregaria, ela riu. Peguei-a no colo, devo ter dado uns dez passos, talvez menos. Ela riu muito. Eu, romântico e quebrado. De certa forma frustrado por não haver conseguido o intento. Fomos em alguns lugares que ela precisava ir e voltamos para casa ao final da tarde. Ao se despedir, M me beijou nos lábios, um beijo simples, um toque singelo naquela boca divina. Aquilo era a gota que faltava para me apaixonar. Devo ter ficado uns dez minutos parado, sozinho na escada, petrificado pelo acontecido. M havia me beijado.
Não lembro muito bem, mas custei a dormir naquela noite. Passei o tempo todo revendo as imagens em meu cérebro, da hora que saímos até voltarmos e o derradeiro e inesquecível beijo naquela boca maravilhosa.
O encontro seguinte foi entre um garoto apaixonado e uma linda mulher. Completamente sem jeito e sem saber como me portar naquela situação. Eu que sempre fui caçador agora era presa diante daquela mulher incrível. Ao beijá-la novamente tive certeza de que era o que eu queria. E o que eu queria era viver aquele sonho tanto quanto pudesse. A cada dia ao seu lado o mundo me parecia melhor (sim, vivi estes absurdos). Ela terminou com o namorado, ele não acreditou quando ela lhe disse que foi por causa de um garoto sem nada. Teve vontade de me espancar, e o teria feito mas ela interviu. Já havia pensado que a surra seria cobrada mais adiante se não houvesse como escapar. Felizmente, pra mim, não aconteceu. E ele poupou seu carro de um sinistro, acho que nunca soube como fui generoso também.
Passava os dias a pensar em M, escrevia-lhe bilhetes, juras de amor, coisas singelas, piegas, que só alguém apaixonado, que realmente ama, deixa-se entregar. E eu a amava. Tanto que não pensava em sexo, justo eu que vivia para isto. Tivemos alguns meses de puro delírio, eu ao menos. Uma vez, ela bateu em nossa porta e atendi, abrindo a janelinha (antigamente as portas tinham pequenas janelas, ainda existem em prédios antigos). Ela me beijou rapidamente, tinha vindo da praia com seu irmão, a cunhada e os filhos. De súbito levantou a blusa e mostrou-me os seios bem formados, para que visse como havia se queimado em demasia. Fiquei embasbacado pela deliciosa surpresa. Daquele dia em diante seus seios deliciavam meus amassos.
Tempos depois, disse que me amava também. Era a minha sentença definitiva. Com M poderia ter encerrado minha vida. Mas felicidade também tem prazo e o meu estava por acabar.
As brigas entre M e a cunhada se acirraram, o clima estava insuportável e morar com o seu irmão já era um transtorno. M andava inquieta, começou a organizar as coisas para partir, eu ainda não sabia quais eram suas intenções. Lembro que numa noite M estava estranhamente carente, chorou, eu presumi que fosse por causa dos problemas com seu irmão, mas no outro dia ficou claro o motivo. Recebi pela empregada uma carta de M, dizendo porque estava fugindo de casa. Seu irmão não a deixaria ir simplesmente. Não acreditei. Na carta M dizia que me amava, que iria embora porque não havia mais clima para ela. Jurou amor eterno (e eu acreditei) e sumiu, sem deixar rastros. Fiquei doente, chorei, entornei garrafas de bebida (típico de cabeça fraca) e me sentia um pária. Minha mãe sofria me vendo daquele jeito. Passei um final de ano terrível. Natal e ano novo praticamente foram ignorados. Meus amigos me levaram contrariado a um réveillon em um clube onde éramos sócios. A noite foi desastrosa, no fim da madrugada me pediram para ir para rua, com uma desculpa qualquer. Lá estava M, maravilhosa como sempre. Meu coração parecia querer sair do peito. Não cabia em mim tamanha felicidade. Ela me abraçou e me beijou com sofreguidão. Não perguntei nada. Só queria ela ao meu lado. Saímos caminhando pelas ruas, nos beijávamos, queríamos recuperar o tempo longe um do outro. Ficamos juntos até o início da manhã. Ela voltou porque precisava me ver, nos despedimos. Esperava vê-la mais tarde mas ela sumiu outra vez. Durante seis meses não soube mais dela. Meses antes, na Páscoa fui com um amigo a sua cidade natal e antes passamos por uma outra cidade onde ela deveria estar, segundo informações que conseguira com seu irmão. Ao chegar, sua prima me informou que ela havia partido para outro estado. Mostrou as coisas dela que ficaram e me falou como ela gostava e falava em mim. Saí de lá completamente perdido. Frustrado. Acompanhei meu amigo em sua viagem, tentando amenizar a dor que sentia. Durante estes meses sofri muito a sua ausência e comecei meu processo de cura tentando esquece-la.

2 comentários:

Carmen (sem filtro) disse...

Estava com saudades do seu cantinho. Dos seus textos perfeitos, sob medida para provocarem tesão na madrugada.
beijo sem filtro.

Fugu disse...

Ah, conta mais, vai. Mas conta do jeitinho como estou pedindo lá no duas bocas ... conta com duas bocas, conta ...